Há trinta e um anos, eu chegava em Sobradinho para começar uma nova vida.
Vejam bem: não vim a passeio. Desembarquei de corpo e alma , determinada a construir um lar, uma família e uma história mas confesso que eu também carregava na bagagem muitas dúvidas e de todas, uma era a que mais me afligia: será que eu conseguiria ser feliz tão longe do ninho?
Estar longe do Rio de Janeiro significava suportar a saudade de uma casa que estava sempre cheia de tudo: amor, amizade, aconchego, referências, avós, pais, tios, madrinhas, amigos … As lembranças que trago daquele tempo nunca foram esquecidas por mim. Mas o desafio ia além da saudade; eu precisava “desprogramar” a carioca para então, dar espaço na minha mente e no meu coração, ao novo estilo de vida: a da vida no interior que, até aquele momento, jurava detestar.
Clima, culinária, a quietude dos dias pacatos…todos os dias eu vencia uma batalha.
Recordo-me dos primeiros churrascos e de como a visão da maionese me revirava o estômago: “Eles comem batatas com ovos crus? Refletia, espantada. E a mistura de cuca – que para mim era quase um bolo- e carne no mesmo prato? E ainda o contrassenso de tomar um chimarrão pelando sob o sol escaldante nas areias de Atlântida? Para mim, aquilo não fazia sentido algum. Esses gaúchos não batem bem da bola, pensava. No meu mundo , pão francês- que aqui atende pelo nome de cacetinho- casava com manteiga e ponto final. De onde tiraram a ideia estapafúrdia de passar nata, esse creme de leite metido a besta, e chimia sobre esse tal de pão de milho? Aliás, quase três décadas depois eu ainda não sei o que diferencia a chimia da geleia mas cá estou eu agora me deliciando com essa combinação. A dupla de chimia e nata é minha versão gaúcha do Romeu e Julieta, a clássica combinação de queijo com goiabada, que os cariocas amam.
Contudo, apesar de todas os estranhamentos iniciais, havia algo que me fazia sentir em casa: a paixão pela carne nos unia enquanto, paulatinamente, a vida me testava de tantas outras formas.
O universo das lareiras, estufas e lençóis térmicos passou a ser o meu mas sigo não gostando da sensação de me empacotar com diversas camadas de roupa. E quando me veem menos agasalhada que o pessoal daqui, logo julgam que a carioca sente menos frio. Ledo engano: o inverno gaúcho ainda me vence.
Lembro que, logo que cheguei, aquele verde infinito que se via ao pegar uma estrada, era, aos meus olhos urbanos, apenas “mato”. Eu era incapaz de enxergar qualquer beleza naquela imensidão verde. Para mim, bonito mesmo eram os arranha-céus, herança visual de olhos ainda impregnados pelo way of life de quem sempre vivera em cidade grande.
Muitos têm ideia de que a vida no interior é pacata: eu também tinha. Mas talvez justamente por essa aparente ausência de pressa, percebo que a sociedade se reinventa. As pequenas cidades movimentam-se em seus próprios eixos: são festas tradicionais, “junção” de amigos e uma dedicação louvável ao voluntariado – que preenche os dias e o coração
Quando por aqui cheguei, nunca duvidei da minha capacidade de adaptação mas em muitos momentos tinha a nítida certeza de que dificilmente me sentiria confortável em um ambiente diametralmente oposto daquele de onde vinha.
Gosto de certezas mas aprendo muito sempre que me engano.
Jamais poderia supor que, por estes pagos, eu construiria uma vida plenamente feliz. No entanto, aqui eu criei raízes profundas e hoje, tenho duas pátrias.
Passado algum tempo, meu prato de churrasco favorito passou a ser servido com muita maionese e alguns pedaços de cuca. Sou eu aquela que para em qualquer estrada para fotografar o imenso tapete verde que emoldura o Rio Grande do Sul. E com um orgulho que já não cabe dentro de mim, canto o hino rio-grandense com tanto respeito que muitas vezes me emociono. Sinto uma imensa gratidão por este solo e por tudo que esta terra e sua gente me deram.
Fato curioso é que pouco mais de dois anos após minha chegada, ganhei de presente do então amigo, que posteriormente seria também meu compadre, Ivan Trevisan, um lindo poema intitulado Prenda Carioca.
Amei a homenagem, a criatividade, a verdade e o carinho contido naqueles versos porém, nos idos de 1997, eu ainda me sentia carioca demais para me reconhecer como prenda. Mas talvez, já ali, meu amigo estivesse enxergando coisas que eu mesma não via: ele percebeu que eu estava abraçando essa terra à medida que era abraçada por ela, criando uma relação de muito amor e respeito a ponto de hoje me sentir realmente como o Ivan me enxergou tão precocemente.
Divido com vocês, o poema Prenda Carioca. Além de ser um presente que guardo com imenso afeto, escolhi esse título para batizar o meu perfil no Instagram. Foi a maneira simbólica que encontrei de retribuir todo acolhimento deste lugar que há muito chamo de lar.
Uma Prenda Carioca por escolha e por amor.
Prenda Carioca
“No Rio você nasceu
Lá brincou e cresceu
Foi menina, foi moça
E uma linda mulher apareceu
Mas um gaúcho que por lá passava
Ao vê-la logo percebeu
O valor daquele tesouro
Que mais tarde seria seu
Então o Rio de Janeiro a perdeu
Mas o Rio Grande do Sul a acolheu
Sobradinho você embelezou e
Muitas casas você encheu
Muitas saudades de lá ficou
Mas aqui vidas você marcou
Seu coração maravilhoso
Nos enfeitiçou
A distância lhe machucou
Mas seu amor a segurou
E para minha sorte
Um irmão você adotou.”
O grande folclorista gaúcho Paixão Cortes já dizia que “gaúcho é um estado de espírito, não é um nascer, é querer ser”.
Eu quis. E sou.
Uma Prenda Carioca por escolha e por amor.
Maio/ 2026




